Ah, como eu adorava o blues. Era a Primavera de 1952 e a parte favorita do meu dia era a chegada de pai do trabalho, ele tirava sua velha gaita de madeira do bolso da calça e assoprava aquelas notas ora tristes, ora excitantes que me envolviam em um mar de som sem igual. Quando meu pai se cansava e ia dormir, eu ia sempre "dar uma conversada" com o Seu Marinho, o jardineiro de nossa casa. Ensinava-me as peculiaridades dos pés de Jabuticaba e por vezes me contava de sua vida temerosa. Seu Marinho era o dono da principal mercearia do bairro, tinha uma vida bem próspera e farta. Meu pai sempre passava lá para encomendar uns discos de jazz, na qual Seu Marinho o fazia por um preço um tanto quanto barato. Era o dono de comércio mais boa pinta da vizinhança, sabia exatamente o que os mais devotos clientes iriam comprar e até concedia pequenos descontos para aqueles que estavam um pouco duros (fiado ele não fazia sobre hipótese alguma). Mas tudo veio a mudar quando uma gangue (que já aterrorizava a Vila Mariana há algum tempo) invadiu a casa de Seu Marinho, matando ambas as filhas e esposa do pobre senhor e suas duas filhas, além disso, levariam grande parte de sua economia tão merecida.
Foi Terrível, o massacre foi parar em mídia nacional e, por algumas semanas, a pacata vizinhança só falava naquilo, mas a pior repercussão foi na mente de Seu Marinho.
A mercearia fora fechada e ninguém mais via Seu Marinho, acabara de virar um prisioneiro de sua própria mente corrida pela insanidade.
Passado alguns meses, meu pai ofereceu um emprego de jardineiro para Seu Marinho como modo de reintroduzi-lo no meio social já há muito abandonado.
Seu Marinho, como um símbolo de gratidão, ofereceu-o a meu pai o único artefato que o recordava do crime e das mortes que o marcara: Uma velha gaita de madeira que havia sido encontrada na cena do crime. Metaforizando assim o esquecer daquelas memórias.
Ainda me lembro claramente do dia em que ele me contou essa história, a visão que eu tinha do velhinho que aparava a grama do quintal mudou bruscamente. Depois desse evento, a gaita de meu pai já não me atraía como antes, era uma singela repulsa que não sabia explicar. Seu Marinho ainda mantinha no rosto o escárnio e o total nojo de sempre da música de meu pai.
Era apenas mais um dia empinando pipa para matar o tédio quando, repentinamente, meu pai me chamou em seu quarto. Ele me dissera que teria que viajar para Santos em uma viagem de negócios e que em três semanas estaria de volta, quando ele terminou de falar reparei que estava com um leve ar doentio.
Demorou, Demorou demais. Às vezes não lembrava mais onde ele estava, sua música e sua ternura me viciaram de um jeito que queria o ver imediatamente. A vida era um tédio, não esperava mais pelas noites que tanto me agradavam.
Mas então, um dia eu ouvira de novo aquela gaita, as notas ressoavam de tal maneira que só poderia ser meu pai, a música me envolvia
Corri, Corri loucamente para o jardim na expectativa de encontrar meu pai, mas o que encontrei foi assustador. Seu Marinho estava segurando a gaita de meu pai em uma mão e uma tesoura de jardinagem desmontada na outra (ambas ensanguentadas). Ele me fitou com um olhar vago, como se olhasse para o vazio e me disse: "Enfim, poderei descansar"
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